Os Setes Saberes Necessários à Educação do Futuro - Edgar Morin
Segue abaixo para nós começarmos a pensar a Educação do século 21, a prática educacional, a teorias que a envolvem, uma base para você estudar/ler o livro de Morin (que cai em vários concursos públicos voltados à docência), um breve resumo desta obra prima das novas teorias e tendências educacionais deste novo milênio.
Boa Leitura, espero que sirva de ajuda á sua prática docente, vida escolar e quem sabe para adentrar na carreira pública do magistério.
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Os sete saberes necessários à
educação do futuro.
Edgar
Morin.
Os sete saberes necessários à educação do
futuro não têm nenhum programa educativo, escolar ou universitário. Aliás, não
estão concentrados no primário, nem no secundário, nem no ensino universitário,
mas abordam problemas específicos para cada um desses níveis. Eles dizem
respeito aos setes buracos negros da educação, completamente ignorados,
subestimados ou fragmentados nos programas educativos. Programas esses que na
minha opinião, devem ser colocados no centro das preocupações sobre a formação
dos jovens, futuros cidadãos.
O Conhecimento.
O primeiro buraco negro diz respeito ao conhecimento.
Naturalmente, o ensino fornece conhecimento, fornece saberes. Porém, apesar de
sua fundamental importância, nunca se ensina o que é, de fato, o conhecimento.
E sabemos que os maiores problemas neste caso são o erro e a ilusão. Ao
examinarmos as crenças do passado, concluímos que a maioria contém erros e
ilusões. Mesmo quando pensamos em vinte anos atrás, podemos constatar como
erramos e nos iludimos sobre o mundo e a realidade. E por que isso é tão
importante? Porque o conhecimento nunca é um reflexo ou espelho da realidade. O
conhecimento é sempre uma tradução, seguida de uma reconstrução. Mesmo no fenômeno
da percepção, através do qual os olhos recebem estímulos luminosos que são
transformados, decodificados, transportados a um outro código, que transita
pelo nervo ótico, atravessa várias partes do cérebro para, enfim, transformar
aquela informação primeira em
percepção. A partir deste exemplo, podemos concluir que a
percepção é uma reconstrução.
Tomemos um outro exemplo de percepção
constante: a imagem do ponto de vista da retina. As pessoas que estão próximas
parecem muito maiores do que aquelas que estão mais distantes, pois à
distância, o cérebro não realiza o registro e termina por atribuir uma dimensão
idêntica para todas as pessoas. Assim como os raios ultravioletas e 2
infravermelhos que nós não vemos, mas sabemos que estão aí e nos
impõem uma visão segundo as suas incidências. Portanto, temos percepções, ou
seja, reconstruções, traduções da realidade. E toda tradução comporta o risco
de erro. Como dizem os italianos “tradotore/traditore”. Também sabemos que não
há nenhuma diferença intrínseca entre uma percepção e uma alucinação. Por
exemplo: se tenho uma alucinação e vejo Napoleão ou Júlio César, não há nada
que me diga que estou enganado, exceto o fato de saber que eles estão mortos.
São os outros que vão me dizer se o que
vejo é verdade ou não. Quero dizer com isso que estamos sempre ameaçados pela
alucinação. Até nos processos de leitura isto acontece. Nós sabemos que não
seguimos a linha do que está escrito, pois, às vezes, nossos olhos saltam de
uma palavra para outra e reconstrói o conjunto de uma maneira quase
alucinatória. Neste momento, é o nosso espírito que colabora com o que nós
lemos. E não reconhecemos os erros porque deslizamos neles. O mesmo acontece,
por exemplo, quando há um acidente de carro. As versões e as visões do acidente
são completamente diferentes, principalmente pela emoção e pelo fato das
pessoas estarem em ângulos diferentes.
No plano histórico há erros, se me permitem
o jogo de palavras, histéricos. Tomemos um exemplo um pouco distante de nós: os
debates sobre a Primeira Guerra Mundial. Uma época em que a França e a Alemanha
tinham partidos socialistas fortes, potentes e muito pacifistas, e que,
evidentemente, eram contrários à guerra que se anunciava. Mas, a partir do
momento em que se desencadeou a guerra, os dois partidos se lançaram,
massivamente a uma campanha de propaganda, cada um imputando ao outro os atos
mais ignóbeis. Isto durou até o fim da guerra. Hoje, podemos constatar com os
eventos trágicos do Oriente Médio a mesma maneira de tratar a informação. Cada
um prefere camuflar a parte que lhe é desvantajosa para colocar em relevo a
parte criminosa do outro. Este problema se apresenta de uma maneira perceptível
e muito evidente, porque as traduções e as reconstruções são também um risco de
erro e muitas vezes o maior erro é pensar que a idéia é a realidade. E tomar a
idéia como algo real é confundir o mapa com o terreno.
Outras causas de erro são as diferenças
culturais, sociais e de origem. Cada um pensa que suas idéias são as mais
evidentes e esse pensamento leva a idéias normativas. Aquelas que não estcomo
um desvio patológico e são taxadas como ridículas. Isso não ocorre somente no
domínio das grandes religiões ou das ideologias políticas, mas também das
ciências.
Quando Watson e Crick decodificaram a
estrutura do código genético, o DNA (ácido desoxirribonucléico), surpreenderam
e escandalizaram a maioria dos biólogos, que jamais imaginavam que isto poderia
ser transcrito em moléculas químicas. Foi preciso muito tempo para que essas
idéias pudessem ser aceitas.
Na realidade, as idéias adquirem
consistência como os deuses nas religiões. É algo que nos envolve e nos domina
a ponto de nos levar a matar ou morrer. Lenin dizia: “Os fatos são teimosos,
mas, na realidade, as idéias s ão ainda
mais teimosas do que os fatos e resistem aos fatos durante muito tempo”.
Portanto, o problema do conhecimento não deve ser um problema restrito aos
filósofos. É um problema de todos e cada um deve levá-lo em conta desde muito
cedo e explorar as possibilidades de erro para ter condições de ver a
realidade, porque não existe receita milagrosa.
O Conhecimento
Pertinente.
O segundo buraco negro é que não ensinamos
as condições de um conhecimento pertinente,
isto é, de um conhecimento que não mutila o seu objeto. Nós seguimos, em primeiro
lugar, um mundo formado pelo ensino disciplinar. É evidente que as disciplinas
de toda ordem ajudaram o avanço do conhecimento e são insubstituíveis. O que
existe entre as disciplinas é invisível e as conexões entre elas também são
invisíveis. Mas isto não significa que seja necessário conhecer somente uma
parte da realidade. É preciso ter uma visão capaz de situar o conjunto. É
necessário dizer que não é a quantidade de informações, nem a sofisticação em
Matemática que podem dar sozinhas um conhecimento pertinente, mas sim a
capacidade de colocar o conhecimento no contexto.
A economia, que é das ciências humanas, a
mais avançada, a mais sofisticada, tem um poder muito fraco e erra muitas vezes
nas suas previsões, porque está ensinando de modo a privilegiar o cálculo. Com
isso, acaba esquecendo os aspectos humanos, como o sentimento, a paixão, o
desejo, o temor, o medo. Quando há um problema na bolsa, quando as ações
despencam, aparece um fator totalmente irracional que é o pânico, e que,
freqüentemente, faz com que o fator econômico tenha a ver com o humano,
ligando-se, assim, à sociedade, à psicologia, à mitologia. Essa realidade
social é multidimensional e o econômico é apenas uma dimensão dessa sociedade.
Por isso, é necessário contextualizar todos os dados.
Se não houver, por exemplo, a
contextualização dos conhecimentos históricos e geográficos, cada vez que
aparecer um acontecimento novo que nos fizer descobrir uma região desconhecida,
como o Kosovo, o Timor ou Serra Leoa, não entenderemos nada.
Portanto, o ensino por disciplina,
fragmentado e dividido, impede a capacidade natural que o espírito tem de
contextualizar. E é essa capacidade que deve ser estimulada e desenvolvida pelo
ensino, a de ligar as partes ao todo e o todo às partes. Pascal dizia, já no
século XVII: “Não se pode conhecer as partes sem conhecer o todo, nem conhecer
o todo sem conhecer as partes”. O contexto tem necessidade, ele mesmo, de seu
próprio contexto. E o conhecimento, atualmente, deve se referir ao global. Os
acidentes locais têm repercussão sobre o conjunto e as ações do conjunto sobre
os acidentes locais. Isso foi comprovado depois da guerra do Iraque, da guerra
da Iugoslávia e, atualmente, pode ser verificado com o conflito do Oriente
Médio.
A Identidade
Humana.
O terceiro aspecto é a identidade
humana. É curioso que nossa identidade seja
completamente ignorada pelos programas de instrução. Podemos perceber alguns
aspectos do homem biológico em Biologia, alguns aspectos psicológicos em
Psicologia, mas a realidade humana é indecifrável. Somos indivíduos de uma
sociedade e fazemos parte de uma espécie. Mas, ao mesmo tempo em que fazemos
parte de uma sociedade, temos a sociedade como parte de nós, pois desde o nosso
nascimento a cultura se nos imprime. Nós somos de uma espécie, mas ao mesmo
tempo a espécie é em nós e depende de nós. Se nos recusamos a nos relacionar
sexualmente com um parceiro de outro sexo, acabamos com a espécie. Portanto, o
relacionamento entre indivíduo-sociedade-espécie é como a trindade divina, um
dos termos gera o outro e um se encontra no outro. A realidade humana é
trinitária.
Eu acredito possível a convergência entre
todas as ciências e a identidade humana. Um certo número de agrupamentos
disciplinares vai favorecer esta convergência. É necessário reconhecer que na
segunda metade do século XX, houve uma revolução dentro desta forma, que não são consideradas normais,
são julgadas científica, reagrupando as
disciplinas em ciências pluridisciplinares. Assim, há a cosmologia, as ciências
da terra, a ecologia e a pré-história. Tome-se como exemplo a cosmologia, que,
efetivamente, utiliza a microfísica, os aceleradores de partículas para
imaginar os primeiros segundos do universo. Ela utiliza a observação e pratica
uma reflexão filosófica sobre o mundo, assim como fizeram Hubert Reeves, Hawkins, Michel Cassé e
tantos outros. Eles refletem sobre o universo incrível no qual vivemos. Mas o
que é importante para a identidade humana é saber que estamos neste minúsculo
planeta perdidos no cosmos. Nossa missão não é mais a de conquistar o mundo como
acreditava Descartes, Bacon e Marx. Nossa missão se transformou em civilizar o pequeno
planeta em que vivemos. Por outro lado, as ciências da terra nos inscrevem
neste planeta formado por fragmentos cósmicos, resultados de uma explosão de
sóis anteriores. Resta saber como estes fragmentos reunidos e aglomerados
puderam criar uma tal organização, uma auto-organização, para nos dar este
planeta. É necessário mostrar que ele gerou a vida, e a nós somos, filhos da
vida.
A biologia, com a teoria da evolução, nos
prova como trazemos dentro de nós, efetivamente, o processo de desenvolvimento
da primeira célula vivente, que se multiplicou e se diversificou. Quando
sonhamos com nossa identidade, devemos pensar que temos partículas que nasceram
no despertar do universo. Temos átomos de carbono que se formaram em sóis anteriores
ao nosso, pelo encontro de três núcleos de hélio que se constituíram em moléculas
e neuromoléculas na terra. Somos todos filhos do cosmos, mas nos transformamos
em estranhos através de nosso conhecimento e de nossa cultura.
Portanto, é preciso ensinar a unidade dos
três destinos, porque somos indivíduos, mas como indivíduos somos, cada um, um
fragmento da sociedade e da espécie Homosapiens,
à qual pertencemos. E o importante é que somos uma parte da
sociedade, uma parte da espécie, seres desenvolvidos sem os quais a sociedade
não existe. A sociedade só vive com essas interações. È importante, também,
mostrar que, ao mesmo tempo em que o ser humano é múltiplo, ele é parte de uma
unidade. Sua estrutura mental faz parte da complexidade humana. Portanto, ou
vemos a unidade do gênero e esquecemos a diversidade das culturas e dos
indivíduos, ou vemos a diversidade das culturas e não vemos a unidade do ser humano.
Esse problema vem causando polêmicas desde o século XVIII, quando Voltaire
disse: “Os chineses são iguais a nós, têm
paixões, choram”. E Herbart, o pensador alemão, afirmou: “Entre uma cultura e
outra não há comunicação, os seres são diferentes”. Os dois tinham razão, mas
na realidade essas duas verdades têm que ser articuladas. Nós temos os elementos
genéticos da nossa diversidade e, é claro, os elementos culturais da nossa diversidade.
È preciso lembrar que rir, chorar, sorrir, não são atos aprendidos ao longo da educação,
são inatos, mas modulados de acordo com a educação. Heigerfeld fez uma observação
sobre uma jovem surda-muda de nascença que ria, chorava e sorria.
Atualmente, estudos demonstram que o feto
começa a sorrir no ventre da mãe. Talvez porque não saiba o que o espera
depois... Mas isso nos permite entender a nossa realidade, nossa diversidade e
singularidade. Chegamos, então, ao ensino da literatura e da poesia. Elas não
devem ser consideradas como secundárias e não essenciais. A literatura é para
os adolescentes uma escola de vida e um meio para se adquirir conhecimentos. As
ciências sociais vêem categorias e não indivíduos sujeitos a emoções, paixões e
desejos. A literatura, ao contrário, como nos grandes romances de Tolstoi, aborda
o meio social, o familiar, o histórico e o concreto das relações humanas com
uma força extraordinária. Podemos dizer que as telenovelas também nos falam
sobre problemas fundamentais do homem; o amor, a morte, a doença, o ciúme, a
ambição, o dinheiro. Temos que entender que todos esses elementos são
necessários para entender que a vida não é aprendida somente nas ciências
formais. E a literatura tem a vantagem de refletir sobre a complexidade do ser
humano e sobre a quantidade incrível de seus sonhos. Como James Joyce, por
exemplo, que, ao criar um personagem, mostrava que uma pessoa pode ter sentimentos
totalmente diversos. Ou como o herói de Dostoievski, em O
Idiota
que não sabe se a jovem está apaixonada por ele e ao fim da trama,
depois de ter sofrido muito, encontra um amigo que lhe diz: “mas que imbecil
você é, não entendeu que ela o ama”. Isto pode acontecer com qualquer pessoa, é
a dificuldade de saber o que o outro pensa e sente. Marcel Proust mostrou, em Um
amor de Swan, o que ele chamava de intermitências do coração,
ou seja, que uma pessoa pode se apaixonar, esquecer-se da pessoa desejada e
voltar a amá-la. Neste romance o herói sofre durante anos de ciúmes por causa
de uma mulher e quando ele já não está mais apaixonado, diz: “mas eu sofri
tanto por uma mulher que não me amava e que nem era meu tipo”.
Podemos, então, compreender a complexidade
humana através da literatura. A poesia nos ensina a qualidade poética da vida,
essa qualidade que nós sentimos diante de fatos da realidade. Como, por
exemplo, os espetáculos da natureza: o céu de Brasília que é tão bonito. A vida
não deve ser uma prosa que se faça por obrigação. A vida é viver poeticamente
na paixão, no entusiasmo. Para que isso aconteça, devemos fazer convergir todas
as disciplinas conhecidas para a identidade e para a condição humana,
ressaltando a noção de homo sapiens;
o homem racional e fazedor de ferramentas, que é, ao mesmo tempo, louco e está
entre o delírio e o equilíbrio, nesse mundo de paixões em que o amor é o cúmulo
da loucura e da sabedoria.
O homem não se define somente pelo
trabalho, mas também pelo jogo. Não só as crianças, como também os adultos
gostam de jogar. Por isso vemos partidas de futebol.
Nós somos Homo
ludens, além de Homo
economicus. Não vivemos só em função do interesse
econômico. Há, também, o homo mitologicus,
isto é, vivemos em função de mitos e crenças. Enfim o homem é prosaico e
poético. Como dizia Hölderling: “O homem habita poeticamente na terra, mas
também prosaicamente e se a prosa não existisse, não poderíamos desfrutar da
poesia”.
A Compreensão
Humana.
O quarto aspecto é sobre a compreensão
humana. Nunca se ensina sobre como compreender
uns aos outros, como compreender nossos vizinhos, nossos parentes, nossos pais.
O que significa compreender? A palavra compreender vem do latim, compreender
e, que quer dizer: colocar
junto todos os elementos de explicação, ou seja, não ter
somente um elemento de explicação, mas diversos. Mas a compreensão humana vai
além disso, porque, na realidade, ela comporta uma parte de empatia e identificação.
O que faz com que se compreenda alguém que chora, por exemplo, não é analisar
as lágrimas no microscópio, mas saber o significado da dor, da emoção. Por
isso, é preciso compreender a compaixão, que significa sofrer junto. É isto que
permite a verdadeira comunicação humana. A grande inimiga da compreensão é a
falta de preocupação em
ensiná-la. Na realidade, isto está se agravando, já que o
individualismo ganha um espaço cada vez maior. Estamos vivendo numa sociedade
individualista, que favorece o sentido de responsabilidade individual, que
desenvolve o egocentrismo, o egoísmo e que, consequentemente, alimenta a
utojustificação e a rejeição ao próximo. A raiva leva à vontade de eliminar o
outro e tudo aquilo que possa aborrecer. De certa maneira, isto favorece ao que
os ingleses chamam de self-deception,
isto é, mentir a si mesmo, pois o egocentrismo vai tramando sempre o negativo e
esquecendo dos outros elementos. A redução do outro, a visão unilateral e a
falta de percepção sobre a complexidade humana são os grandes empecilhos da
compreensão. Outro aspecto da incompreensão é a indiferença. E, por este lado,
é interessante abordar o cinema, que os intelectuais tanto acusam de alienante.
Na verdade, o cinema é uma arte que nos ensina a superar a indiferença, pois
transforma em heróis os invisíveis sociais, ensinando-nos a vê-los por um outro
prisma. Charlie Chaplin, por exemplo, sensibilizou platéias inteiras com o
personagem do vagabundo. Outro exemplo é
Coppola, que popularizou os chefes da Máfia com “O Chefão”. No teatro, temos a
complexidade dos personagens de Shakspeare: reis,
gangsters, assassinos e ditadores. No
cinema, como na filosofia de Heráclito:
“Despertados, eles dormem”. Estamos
adormecidos, apesar de despertos, pois diante da realidade tão complexa, mal
percebemos o que se passa ao nosso redor. Por isso, é importante este quarto
ponto: compreender não só os outros como a si mesmo, a necessidade de se
auto-examinar, de analisar a autojustificação, pois o mundo está cada vez mais
devastado pela incompreensão, que é o câncer do relacionamento entre os seres
humanos.
A Incerteza.
O quinto aspecto é a incerteza.
Apesar de, nas escolas, ensinar-se somente as certezas, como a gravitação de
Newton e o eletromagnetismo, atualmente a ciência tem abandonado determinados
elementos mecânicos para assimilar o jogo entre certeza e incerteza, da
micro-física às ciências humanas. É necessário mostrar em todos os domínios, sobretudo
na história, o surgimento do inesperado. Eurípides dizia no fim de três de suas
tragédias que: “os deuses nos causam grandes surpresas, não é o esperado que
chega e sim o inesperado que nos acontece”. É a velha idéia de 2.500 anos, que
nós esquecemos sempre. As ciências mantêm diálogos entre dados hipotéticos e
outros dados que parecem mais prováveis. Os processos físicos, assim como
outros também, pressupõem variações que nos levam à desordem caótica ou à
criação de uma nova organização, como nas teorias sobre a incerteza de
Prigogine, baseadas nos exemplos dos turbilhões de Born. Analisando retroativamente
a história da vida, constata-se que ela não foi linear, que não teve uma evolução
de baixo para cima. A evolução segundo Darwin foi uma evolução composta de ramificações,
a exemplo do mundo vegetal e o mundo animal. O homem vem de uma dessas
ramificações e conseguiu chegar à consciência e à inteligência, mas não somos a
meta da evolução, fazemos parte desse processo. A história da vida foi, na
verdade, marcada por catástrofes.
No fim da era secundária, a queda do
asteróide que matou os dinossauros e ressecou a vegetação desses animais
enormes, matando-os de fome deu oportunidade à proliferação dos mamíferos.
Assim também ocorreu com as sociedades humanas. Todas sofreram o colapso por
uma razão ou outra. Nem mesmo o império romano, que parecia eterno, conseguiu
sobreviver. As sociedades andinas, que eram mais potentes que seus colonizadores
espanhóis e cujas capitais eram muito mais ricas que Paris, Madri ou Lisboa, foram
destruídas por espanhóis que chegaram com cavalos e armas desconhecidas.
As duas guerras mundiais destruíram muito
na metade do século XX, depois da Primeira Guerra Mundial. Três grandes
impérios da época, por exemplo, o romano-otomano, o austro-húngaro e o
soviético, desapareceram. Isto nos demonstra a necessidade de ensinar o que
chamamos de ecologia da ação: a atitude que se toma quando uma ação é
desencadeada e escapa ao desejo e às intenções daquele que a provocou,
desencadeando influências múltiplas que podem desviá-la até para o sentido
oposto ao intencionado.
A história humana está repleta de exemplos
dessa natureza. O mais evidente no final do século XX foi o projeto político de
Gorbatchev, que pretendeu reformar o sistema político da União Soviética, mas
acabou provocando o começo de sua própria desagregação e implosão. Assim tem
acontecido em todas as etapas da história. O inesperado aconteceu e
acontecerá, porque não temos futuro e não
temos certeza nenhuma do futuro. As previsões não foram concretizadas, não
existe determinismo do progresso. Os espíritos, portanto, têm que ser fortes e
armados para enfrentarem essa incerteza e não se desencorajarem. Essa incerteza
é uma incitação à coragem. A aventura humana não é previsível, mas o imprevisto
não é totalmente desconhecido. Somente agora se admite que não se conhece o
destino da aventura humana. É necessário tomar consciência de que as futuras
decisões devem ser tomadas contando com o risco do erro e estabelecer
estratégias que possam ser corrigidas no processo da ação, a partir dos
imprevistos e das informações que se tem.
A Condição
Planetária.
O sexto aspecto é a condição
planetária, sobretudo na era da globalização no século
XX – que começou, na verdade no século XVI com a colonização da América e a interligação
de toda a humanidade. Esse fenômeno que estamos vivendo hoje, em que tudo está
conectado, é um outro aspecto que o ensino ainda não tocou, assim como o
planeta e seus problemas, a aceleração histórica, a quantidade de informação
que não conseguimos processar e organizar.
Este ponto é importante porque existe, neste momento, um destino comum para todos
os seres humanos. O crescimento da ameaça letal se expande em vez de diminuir:
a ameaça nuclear, a ameaça ecológica, a degradação da vida planetária. Ainda
que haja uma tomada de consciência de todos esses problemas, ela é tímida e não
conduziu ainda a nenhuma decisão efetiva. Por isso, faz-se urgente a construção
de uma consciência planetária. Conhecer o nosso planeta é difícil: os processos
de todas as ordens – econômicos, ideológicos e sociais – estão de tal maneira
imbricados e são tão complexos, que compreendê-los é um verdadeiro desafio para
o conhecimento. Ortega y Gasset dizia: “não sabemos o que acontece, isto é o
que acontece”. É necessária uma certa distância em relação ao imediato para podermos
compreendê-lo. E, atualmente, dada a aceleração e a complexidade do mundo, é
quase impossível. Mas, faz-se necessário ressaltar, é esta a dificuldade. É
necessário ensinar que não é suficiente reduzir a um só a complexidade dos
problemas importantes do planeta, como a demografia, ou a escassez de
alimentos, ou a bomba atômica, ou a ecologia. Os problemas estão todos
amarrados uns aos outros.
Daqui para frente, existem, sobretudo, os
perigos de vida e morte para a humanidade, como a ameaça da arma nuclear, como
a ameaça ecológica, como o desencadeamento dos nacionalismos acentuados pelas
religiões. É preciso mostrar que a humanidade vive agora uma comunidade de
destino comum.
A Antropo-ética.
O último aspecto é o que vou chamar de antropo-ético,
porque os problemas da moral e da ética diferem a depender da cultura e da
natureza humana. Existe um aspecto individual, outro social e outro genético,
diria de espécie. Algo como uma trindade em que as terminações são ligadas: a
antropo-ética. Cabe ao ser humano desenvolver, ao mesmo tempo, a ética e a
autonomia pessoal (as nossas responsabilidades pessoais), além de desenvolver a
participação social (as responsabilidades sociais), ou seja, a nossa participação
no gênero humano, pois compartilhamos um destino comum. A antropo-ética tem um
lado social que não tem sentido se não for na democracia, porque a democracia
permite uma relação indivíduo-sociedade e nela o cidadão deve se sentir
solidário e responsável. A democracia permite aos cidadãos exercerem suas responsabilidades
através do voto. Somente assim é possível fazer com que o poder circule, de
forma que aquele que foi uma vez controlado, terá a chance de controlar. Porque
a democracia é, por princípio, um exercício de controle. Não existe,
evidentemente, democracia absoluta. Ela é sempre incompleta. Mas sabemos que
vivemos em uma época de regressão democrática, pois o poder tecnológico agrava
cada vez mais os problemas econômicos. Na verdade, o é importante orientar e guiar
essa tomada de consciência social que leva à cidadania, para que o indivíduo
possa exercer sua responsabilidade.
Por outro lado, a ética do ser humano está
se desenvolvendo através das associações não-governamentais, como os Médicos
Sem Fronteiras, o Greenpeace, a Aliança pelo Mundo Solidário e tantas outras
que trabalham acima de entidades religiosas, políticas ou de Estados nacionais,
assistindo aos países ou às nações que estão sendo ameaçadas ou em
graves conflitos. Devemos conscientizar a
todos sobre essas causas tão importantes, pois estamos falando do destino da
humanidade. Seremos capazes de civilizar a terra e fazer com que ela se torne
uma verdadeira pátria? Estes são os sete saberes necessários ao ensino. E não
digo isso para modificar programas. Na minha opinião, não temos que destruir
disciplinas, mas sim integrá-las, reuni-las em uma ciência como, por exemplo,
as ciências da terra (a sismologia, a vulcanologia, a meteorologia), todas elas
articuladas em uma concepção sistêmica da terra. Penso que tudo deva estar
integrado para permitir uma mudança de pensamento; para que se transforme a
concepção fragmentada e dividida do mundo, que impede a visão total da
realidade. Essa visão fragmentada faz com que os problemas permaneçam invisíveis
para muitos, principalmente para muitos governantes.
E hoje que o planeta já está, ao mesmo
tempo, unido e fragmentado, começa a se desenvolver uma ética do gênero humano,
para que possamos superar esse estado de caos e começar, talvez, a civilizar a
terra.

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